Felipe Moreno
Felipe Moreno

Outono é um outro céu

28 de outubro de 2020
Eu CompartilhoLugares Pela América do Sul
(Egrégora de mendigos – diário do mochilão, parte 10)


O céu de Buenos Aires é um outro céu. Como também foram tão distintos e lindos os céus que encontrei no Uruguai. E até São Paulo, que já tenho saudades, é cheia de vaidade na hora do seu pôr do sol de um dia bonito de maio ou junho.

Foto: Felipe Moreno

Temos um responsável: o outono. É a única estação que, na aurora e no crepúsculo, é capaz de criar um raro fenômeno de cores no firmamento. Arrebóis, tons de roxo, marcas violetas, abstrações de nuvens. É esse tipo de céu, concreto às vistas, que me faz especular os mistérios mais profundos.

Se estou na rua com meus fones de ouvido e me calha de cair a música que perfeitamente sincroniza com o ambiente, imediata e instintivamente eu ergo os olhos para o céu. E, diante da imensidão colorida, lá fico, com a visão cravada, estática; alado e sinceramente alienado. Arrebatado por dentro, às vezes me escapa uma lágrima por motivos de beleza.

Quem passa e me nota, ou me vê na imagem de um santo, ou me imagina um idiota. 

Sobre o que veem e pensam, eu não dou a mínima. Ninguém é capaz de interferir um cisco sequer no meu prazer de ser abobado diante das coisas da natureza. A minha oração se chama contemplação.

Depois de muito treino e disciplina, aprendi a me encapsular em mim mesmo, no mais absoluto e divertido isolamento mental, até quando estou na multidão. Posso exercer a solidão como quem aperta um botão ou puxa uma alavanca; e a minha solidão é tão povoada, tão viva e colorida, tão festiva. 

Foto: Felipe Moreno

O céu de Buenos Aires é todo esse estrondo, todo esse encanto que muito me incitou o exercício de se parecer santo ou idiota diante da sua imagem. 
Eu poderia falar mais sobre a cidade, os passeios e toda a gente que conheci por aqui; da vida noturna agitada, dos shows e eventos culturais gratuitos, das festas. (Adendo, agora, somente para parabenizar a vitória dos movimentos sociais, fundamentalmente do feminismo: nesta semana, a Câmara dos Deputados argentina aprovou o projeto de lei que descriminaliza o aborto no país. Avanço.)

Entretanto, os pores do sol e as visões que tive do Rio da Prata suavemente amenizam o barulho de todos os outros acontecimentos.

Além do céu, tem o rio: no limite do horizonte, onde traça-se a linha que divide um e outro, a combinação perfeita. Deve ser o rio, o ponto de fuga e, ao mesmo tempo, de encontro consigo mesmo que todo portenho tem o privilégio de desfrutar.

Falta ao paulistano alguma paisagem ampla e silenciosa. Essa falta, para nós, é como um trauma que propicia as neuroses mais improváveis e sinistras durante as madrugadas. Se tivéssemos, por exemplo, algo como o Rio da Prata, assim como tem a gente que vive em Montevidéu e Buenos Aires, nós, paulistanos, adoeceríamos menos, nos perturbaríamos menos.

Dormiríamos melhor.

Buenos Aires, Argentina, 23 de maio de 2018

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