Heitor e Silvia Reali
Heitor e Silvia Reali

Antártida, natureza extrema, mas poética

11 de julho de 2018
Eu Vivo

Crédito: Viramundo e Mundovirado

Por Heitor e Silvia Reali, do site Viramundo e Mundovirado

A verdadeira definição que se pode fazer ao continente antártico é descrevê-lo como natureza extrema e última fronteira do turismo. Mas, essa experiência única para os viajantes só pode ser considerada para aquele aventureiros com pique em dia? Engano. A Antártida é hoje destino de cruzeiros para pessoas de todas as faixas etárias, além de incluir a bordo, conforto, segurança e boa gastronomia. Mesmo assim, permanece um quê de viagem à moda antiga. Talvez pelo fato da região continuar tão inóspita e inacessível quanto na época das grandes aventuras do começo do século passado.

Crédito: Viramundo e Mundovirado

Os navios partem para a continente branco de outubro a março, quando um sol balsâmico dá o ar da graça e deixa as temperaturas acima de zero. Nessa época com dias longos e noites curtas, a natureza de cores e formas puras quebra o gelo e atiça o coração.

Com sonho por conquistar e saudade de um lugar que nunca tinha ido antes, embarquei na primeira viagem da temporada do navio Nordnorge, de bandeira norueguesa. Ele zarpou de Buenos Aires rumo ao continente antártico.

Ilha Decepcion | Crédito: Viramundo e Mundovirado

Pode falar o diabo, mas a Antártida é bonita à beça! A natureza tem um estilo de paisagens – quer por conta do clima, dos animais e das aves – que são descritas como sublime e jamais vista em outras partes do mundo. Entre os animais estão os simpáticos pinguins, as baleias, as focas, os leões e os elefantes marinhos, e entre as aves o petrel gigante, a skua, o albatroz e as gaivotas. Ali podemos capturar os primórdios da era do gelo. O espaço não é uniforme. Nas grandes planícies ondeadas por glaciares, algumas vezes são visíveis fortes pinceladas negras nas montanhas cobertas de gelo e neve. São rochas vulcânicas que ainda se mantêm aquecidas. Esta paisagem domina a Ilha Decepcion.

Crédito: Viramundo e Mundovirado

Sob um sol diamante, cuja luz reverbera na paisagem produzindo cores inesperadas, aureola a planície gelada e faz cintilar o branco dos icebergs e o azul do mar, cada pitstop ganha ares de nova expedição. Em zodíacos (pequenos barcos infláveis motorizados) visitei estações de pesquisas de diversos países, além de cabanas de antigos exploradores, geleiras, fiordes e estreitos, como o Lemaire considerado um dos lugares mais espetaculares de toda a Antártica.

Desembarque em pequeno botes, e poucos passageiros de cada vez

Esse paraíso neutro que pertence a humanidade é regido por severos tratados internacionais, razão pela qual a aventura ali se resume à contemplação. É a paisagem que importa. Todos os visitantes que desejam descer no continente seguem inúmeras ordens: somente são autorizados navios com um máximo de 300 passageiros, é obrigatória a higienização das botas dos viajantes a cada desembarque e retorno ao navio, o tempo de permanência em cada descida é de apenas duas horas, deve-se manter distância de três metros de toda a fauna, e não se pode tocar na rara vegetação.

… e daqui a pouco o tempo vai mudar para uma tempestade assustadora. | Crédito: Viramundo e Mundovirado

Na península antártica começa um universo onde tudo é extremo, submetido a leis que estão acima de qualquer ser humano. Ela é a única que pode virar qualquer jogo. Foi o que aconteceu na Ilha de Cuverville quando alguns passageiros desceram para visitar uma colônia de pinguins Adelie. O tempo estava ótimo. Vários grupos já estavam na ilha, e outros voltando, quando o clima mudou repentinamente. Em menos de dois minutos, rajadas de vento criaram vagalhões de três metros de altura que impossibilitaram os botes, com oito passageiros, de retornar ao navio ou à terra firme. Eles ficaram mais de uma hora à deriva, procurando se abrigar atrás de icebergs ou do próprio navio para fugir das enormes ondas. Os que estavam em terra só retornaram após seis horas, pois não havia nenhuma condição de buscá-los. Parte da tripulação do navio que os acompanhava em terra – sempre preparada para acontecimentos inesperados – abrigou-os em pequenas tendas, levadas em todo desembarque.

Essa é uma das provas de que a natureza desse continente forja novos personagens em poucos dias. E, muda a vida de cada viajante.

Heitor e Silvia em uma colônia de pinguins-reis

Viramundo e Mundovirado

Heitor Reali é jornalista e fotógrafo e já foi engenheiro, Silvia Reali é artista plástica, jornalista e fotógrafa. Vivemos em São Paulo, conhecemos 90 países, e somos apaixonados pelo Brasil.  Acompanhe os autores também no Viramundo e Mundovirado  (no Facebook e Instagram), no Blog do Estadão: Viagens Plásticas,  na coluna no Catraca Livre, no Viver Agora e também o Atelier Reali.

Leia Também
Comente com o Facebook
Deixe seu Comentário